ABOLA — O Sporting pretende diminuir em cerca de metade o seu passivo e ambiciona, ao mesmo tempo, ter sucesso desportivo. Não será, isto, uma contradição e, por isso, talvez uma impossibilidade?
SOARES FRANCO — Acho que não. Não começámos, agora, a ter a preocupação de garantir a estabilidade financeira do Sporting e a verdade é que a época foi, desportivamente, positiva. Por isso lhe digo que o Sporting tem de ser gerido com muito bom senso e pragmatismo.
B — É com esse bom senso que vai investir parte do dinheiro da venda do Nani ao Manchester, no futebol...
SF — Temos a noção de que não podemos comprar outro Nani, no nível em que ele estava, por menos dinheiro do que ele custou ao Manchester. Só conseguiremos voltar a ter jogadores com aquele valor se os formarmos e por isso temos investido e vamos continuar a investir na formação.
B — Não pensa comprar jogadores já feitos.
SF — Não disse isso. Qualquer investimento na área desportiva tem custo nos anos consequentes e por isso temos de ser muito cuidadosos na escolha. A regra básica e fundamental é a regra do equilíbrio. Temos de saber investir bem.
B — Em que condições pode o Sporting vir a comprar jogadores de valor já firmado, sem ser necessário formá-lo?
SF — Se entendermos que será, desde logo, um activo do clube e que não seja caro. Pode estar, até, em final de carreira e vir fazer um ou dois anos muito produtivos no Sporting.
B — Admite, pois, aumentar os custos regulares com os jogadores da equipa profissional...
SF — Deveremos poder subir qualquer coisa como dez por cento, em relação ao ano passado.
B - O segredo está, pois, numa boa formação...
SF — A formação é muito importante, mas não chega. Nunca poderíamos pensar que alguma vez fosse possível o Sporting ter, na sua equipa principal, apenas jogadores da formação. Só se jogássemos com os juniores.
B — Mas sente orgulho na escola de formação do Sporting.
SF — Claro que sim. A formação, no Sporting, é uma questão culturalmente assumida. Não desde sempre, mas desde a altura em que pudemos contar com o projecto da Academia. É por isso que podemos fazer mais, com menos.
B — Romagnoli é, ainda, um jogador jovem e que melhorou muito na última época. O Sporting vai assegurar-se de que não perderá esse seu investimento?
SF — Romagnoli é um jogador que interessa ao Sporting e tudo faremos para ficar com ele. Porém, é preciso compreender que todos os jogadores têm um determinado valor e acima daquilo que consideramos ser justo não podemos ir.
B — Mas os sportinguistas têm carinho por ele...
SF — Não deixa de ser um caso engraçado na família adepta do Sporting. Para ser verdadeiro, até posso esticar o elástico aos corpos sociais do Sporting. O Romagnoli estava longe de ser um jogador que reunia consenso no que respeitava ao seu valor. Muitos achavam que era, apenas, um futebolista mediano, mas hoje em dia, já não há essa ideia. Uma coisa lhe garanto, se for possível contratar o Romagnoli, vamos contratar.
B — Vender um jogador como Nani era uma necessidade absoluta para o Sporting?
SF — Não, não era. Todo o plano que tínhamos programado era no sentido de fazer reajustes no plantel, mas não passava por vender o Nani, ou qualquer outro dos nossos jovens de reconhecido talento. Tal como nunca pensámos em vender jogadores como Liedson, Polga ou Ricardo. E digo isto sob palavra de honra.
B — Mas não havia essa necessidade financeira?
SF — Continuo a dizer-lhe que não. Há um amigo meu, o José Filipe Nobre Guedes que explica bem isto com uma frase que eu já decorei: a caixa é uma realidade, os lucros são vaidade. E isso é verdadeiramente o que importa na gestão de uma empresa. O resultado, pelo resultado, seria apenas uma vaidade...